Acadêmico relembra episódio do “Bisturi de Ouro”
O acadêmico Lucio Prado Dias publicou, nesta segunda-feira – 27 de julho de 2026, em suas redes sociais, matéria de relevante conteúdo histórico, onde relembra um fato marcante da medicina sergipana. Leia abaixo:
ESPECIAL – O BISTURI DE OURO DE AUGUSTO LEITE
O gesto de Augusto Leite, doando o “Bisturi de Ouro” ao mais antigo hospital de Aracaju, é um dos momentos mais expressivos da história médica de Sergipe.
Simboliza o reencontro afetivo do grande cirurgião com a secular casa que o abrigou na década de 10, dando-lhe as condições para fazer a primeira laparotomia (cirurgia abdominal) de Sergipe, em 1914. E principalmente, o despojar de ressentimentos e amarguras pretéritas.
Na década de 20, contrariado com a alta direção do Hospital Santa Isabel, comandada pelo desembargador Simeão Sobral, suprimindo as chamadas “grandes cirurgias” naquele nosocômio, Augusto deixou o hospital prometendo que ali nunca mais colocaria os pés. Conseguiu então sensibilizar Graccho Cardoso para a necessidade da construção de um novo hospital em Aracaju. A promessa foi cumprida e em 1926 surgia o Hospital Cirurgia, que tantas glórias trouxe para a nossa Medicina.
Aproximava-se 1958, ano em que Augusto Cezar comemoraria seus cinquenta anos de formatura. Os médicos do Hospital de Cirurgia, liderados por Walter Cardoso e Juliano Simões, prestam-lhe justas homenagens e entre elas, oferece-lhe o “Bisturi de Ouro”.

Por sua vez, Gileno da Silveira Lima assumia a direção do Hospital Santa Isabel, após a morte de Carlos Firpo e da sequência à grande obra de modernização do centenário nosocômio. Entre outras realizações, edificou um novo setor operatório, a quem denominou de Centro Cirúrgico “Dr. Augusto Leite”. Gileno queria muito que Augusto comparecesse ao ato de inauguração, mas todos se lembravam da promessa do velho cirurgião. O desafio agora era sensibilizá-lo a retornar à casa. Num trabalho de extrema habilidade, que contou com a participação de médicos muito chegados a ele, como Benjamin Carvalho, Lauro Porto, Machado de Sousa e Juliano Simões, Gileno conseguiu que Augusto retornasse ao Santa Isabel para a inauguração do centro cirúrgico. Dito e feito, um Dr. Augusto, tímido e desconfiado, colocava de novo os pés no Santa Isabel! Uma glória!

Mas um desafio maior estava por vir. O ano de 1964 marcaria o cinquentenário da primeira laparotomia realizada em Sergipe, ocorrida no Hospital Santa Isabel. Gileno instala uma comissão especial para organizar as comemorações do Jubileu e entre as atividades, uma era de um simbolismo extraordinário: a repetição da primeira laparotomia feita em Sergipe, a retirada de um fibrossarcoma uterino de uma paciente especialmente preparada para esse fim. Convidaram o “velho” cirurgião para realizá-la e ele, após natural hesitação, aceitou o desafio. Mesmo sem estar operando há alguns anos, Augusto Leite empunhou o bisturi e com mãos firmes e decididas, ressecou o tumor uterino com extrema habilidade e rapidez. As pessoas que estavam na sala de operação não conseguiram conter a emoção e irromperam em aplausos e lágrimas.

Emocionado e reconhecido, Augusto teve um gesto magnânimo. Doou ao Hospital Santa Isabel o “Bisturi de Ouro” que recebeu dos médicos do Cirurgia. Com devoção, Gileno Lima guardou o instrumento com todo o carinho colocando-o numa gruta iluminada, incrustada em um dos corredores onde lá ele permaneceu por muitos anos.
Nos dias de hoje, por doação do Hospital Santa Isabel, o Bisturi faz parte do acervo do Museu Médico de Sergipe, da Academia Sergipana de Medicina, aguardando a conclusão da reforma do Instituto Parreiras Horta, para onde será transferido todo o acervo em definitivo.
